Estudo aponta que uso recreativo de drogas pode dobrar o risco de AVC

 


Levantamento com mais de 100 milhões de pessoas associa anfetamina, cocaína e cannabis ao aumento do risco

 

Um novo levantamento científico reforça o alerta sobre os riscos do uso recreativo de drogas ilícitas para a saúde do cérebro. Uma revisão internacional que analisou dados de mais de 100 milhões de pessoas identificou que substâncias como anfetamina, cocaína e cannabis estão associadas a um aumento significativo no risco de acidente vascular cerebral (AVC), podendo, em alguns casos, mais que dobrar a probabilidade de ocorrência.

 

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Cambridge e reuniu 32 estudos publicados anteriormente. O trabalho utilizou uma metodologia conhecida como randomização mendeliana, que analisa variações genéticas para investigar possíveis relações de causa e efeito entre fatores de risco e doenças, trazendo mais robustez aos resultados.

 

Os dados mostram que o uso de anfetaminas está associado ao maior risco, com aumento de 122% na chance de AVC. Já a cocaína aparece com elevação de 96%, enquanto a cannabis está ligada a um aumento de 33%. A análise não encontrou associação significativa no caso dos opioides.

 

Para o neurocirurgião Victor Hugo Espíndola, os resultados confirmam o que já é observado na prática clínica. “Essas substâncias têm um efeito direto sobre os vasos sanguíneos e o coração. Elas podem provocar elevações bruscas da pressão arterial, contração dos vasos cerebrais e alterações no ritmo cardíaco, criando um cenário propício para o AVC”, explica.

 

O estudo também detalha como cada droga impacta o organismo. No caso da cannabis, os pesquisadores apontam alterações no controle do fluxo sanguíneo cerebral, episódios de vasoconstrição e maior tendência à formação de coágulos. A cocaína, por sua vez, está associada a picos hipertensivos e espasmos nos vasos, enquanto as anfetaminas podem causar vasoconstrição intensa, arritmias e sobrecarga cardiovascular.

 

“Quando há essa combinação de fatores, o cérebro pode sofrer tanto pela falta de sangue quanto pelo rompimento de vasos. Por isso, o risco não é apenas de um tipo de AVC, mas de diferentes formas da doença”, ressalta Victor Hugo Espíndola.

 

A análise também indica que diferentes drogas estão associadas a tipos específicos de AVC. A cannabis foi mais relacionada a alterações em grandes artérias cerebrais. Já a cocaína aparece com maior frequência em casos de AVC cardioembólico, quando um coágulo se forma no coração e migra até o cérebro. No caso das anfetaminas, há uma ligação mais forte com AVC hemorrágico, caracterizado pelo rompimento de vasos sanguíneos.

 

Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que os efeitos podem ocorrer mesmo em pessoas jovens e sem histórico prévio de doenças. “O grande problema é que muitos usuários não se consideram em risco. Mas essas drogas podem desencadear um evento grave de forma súbita, sem aviso prévio”, alerta o neurocirurgião Victor Hugo Espíndola.

 

Segundo o especialista, o uso recreativo, muitas vezes associado a momentos sociais, contribui para a subestimação dos perigos. “Existe uma banalização do consumo. No entanto, estamos falando de substâncias que podem provocar alterações severas no organismo em pouco tempo. O AVC pode deixar sequelas permanentes ou até levar à morte”, afirma.

 

Os resultados reforçam a necessidade de ampliar a conscientização sobre os impactos do uso de drogas ilícitas na saúde cerebral e cardiovascular, especialmente entre a população mais jovem.

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